OACPMUSSA

Borboletas

Eu sabia que elas me iam atraiçoar.
Como se atreveram a fazê-lo nas minhas hipotéticas barbas é que ainda não entendi.
Estava tudo a correr tão bem!

Tinham que chegar esses animais com lindas asas e lindas palavras com promessas de doces futuros para me estragar o momento.

São como uma viúva negra. Atraem para melhor destruir…

Eu acho que até preferia nem saber, nem ter visto o que vi, mas as borboletas estavam a voar por ali e tive de olhar para elas. E assim que olhei, chorei. Desalmadamente, estragando a noite e o dia, e estragando as originais borboletas, que agora me parecem monstros, gárgulas, em vez de animais voadores, coloridos e graciosos como são…

Julieta

(direitos de autor)

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Candeeiro
Está escuro lá fora. As luzes parecem mais fracas e a macieira, mais alta a cada ano que passa, rasga a pouca luminosidade que vem da rua.
Não está vento, mas parece que vem uma tempestade a caminho. Uma daquelas breves, mas poderosas.

E não tenho mais onde me esconder, até porque já chega de o fazer. Mesmo que tivesse para onde me escapulir, acho que não o faria.

Sinto finalmente força para enfrentar coisas. Coisas sendo “coisas” o mesmo que “problemas”.

Não cresci nem um centímetro mas ao mesmo tempo cresci 10 centímetros.

Há uma força dentro de mim que finalmente vai romper, dominar, gritar, matar.

Este ano, posso adoptar o lema “No more Mr. Nice Guy”. Ou no meu caso, “No more Ms. Nice Chick.”

Julieta

(direitos de autor)

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Domingo

Os Domingos não existem.

São dias sem frutos, sem vida.

Têm adultos, sem paciência e com crises de meia-idade a passear com os filhos.

Têm jovens a ir aos cafés, conspirar e refilar com o “sistema”, sem nada fazer para que mude.

Têm adolescentes que bufam, suspiram e refilam a pedir que o Domingo não acabe.

Eles só não se apercebem que o Domingo não acaba porque não existe.

O Domingo não existe porque secretamente todos o odeiam.

Julieta

(direitos de autor)

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Fala-me

As lágrimas correm estupidamente, pela cara abaixo, sem direcção e propósito. O coração bate rapidamente, esforçando-se para se acalmar. Mas não o faz. As palavras não saem, e o único barulho que o meu corpo faz é o bater dos dentes. O tremor, do nervoso está igual ao tremor do frio, mas nem aquecendo pára. Fecho os olhos, e a cabeça explode. Parece que está inchada, e que vai partir.

O Mundo quer mudar.

Eu paro, e raciocino.
E é assim que eu sofro..

Julieta

(direitos de autor)

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Guts over brains

E eu a pensar que estava na altura. De desistir, digo.
Aparentemente não. Voltas e voltas depois, o meu estômago decide que parar de tremer, grunhir e exprimir a sua má disposição não é uma escolha. Tem de acontecer: o estômago manda.

“Das duas, trinta e uma.”
Será desta? Será agora que o meu olfacto (ou a falta dele) me denuncia, que o meu sorriso deixa escapar uma (meia) verdade?

Sim, o meu corpo vai-me denunciando involuntariamente, enquanto eu silenciosamente aguardo que o cérebro o domine.
Mas não. Diz o estômago, que manda, que é preferível ser dominada e denunciada, apontada claramente como a criança que bateu na outra, a que passa a vida a ser apontada e a ouvir dizer sobre si “Foi ele!”.

Ao menos acabam-se as charades.

Julieta

(direitos de autor)

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Puppet Master

Ping Pong.
Quando bem jogado, a bola faz sempre o mesmo som, o mesmo ritmo (quase musical) de back and forth.

Eu sou a bola. Tanto fico em cima, como em baixo.
Sujeita a levar pancadas de tal força que posso rebentar.
Frágil, mas crucial para o jogo.

A velocidade a que a bola vai só depende da perícia do jogador, e neste caso, acho que até estou nas mãos de alguém que joga estupidamente bem.
É. Estou nas mãos de alguém.

Julieta

(direitos de autor)

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Sabes?

Acho que não.
E daí talvez saibas e estejas a fazer-te de desentendido. E quem não se faz, “de quando em vez”?
Até porque se fosse “de vez em quando” era demasiado comum para ti.

E é isso que me aborrece: o facto de seres tudo menos comum. É isso que me causa um mal estar eminente, e por incrível que te possa parecer, falta de apetite.

Se souberes, diz-me.
Se não sabias, ficaste a saber.

A verdade é que estou a isto (e imagina agora que delineio, neste momento, um espacinho minúsculo entre o meu polegar e o meu indicador) de me deixar ir.
Até porque, se continuar assim, dentro de momentos eu deixarei de ser eu.

Oh Ser, sê à vontade!
Só não me importunes como um grilo, que faz um barulho interessante ao início, e passado uns tempos, insuportável.

Julieta

(direitos de autor)

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Vale dos Homens

Uma vez confessei-me. Não do modo religioso, que isso não importa ao espírito.

Confessei-me com gritos, com movimentos, com lágrimas, com expressões.

Estamos à beira dum precipício, prontos a soltar um grito que esperamos que ecoe por montes e vales descobrimos que não o conseguimos fazer com tanta facilidade como pensámos inicialmente. Isso é uma confissão.

Confessar-me é deixar que os sentimentos expludam dentro de mim, é sentir um nó na garganta que depois alivia. Confessar-me é sentir-me pesada para depois me sentir leve como nunca antes me tinha sentido. Confessar-me é usar tudo o que tenho em mim, menos as palavras.

A confissão é um acto de libertação que o espírito exige no corpo. E aqui, o cérebro e a mente nada mandam.

Julieta

(direitos de autor)

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Wishlist

Querido Dezembro,

Traz-me a beleza. Faz-me chorar, mas de alegria. Dá-me um sorriso que nunca acabe. Transmite-me paz.

Querido Dezembro,

Obriga-me a cantar e a dançar. Faz-me ver a cores. Aquece-me o coração. Traz-me mais que recordações.

Querido Dezembro,

Traz-me alguém. Dá-me amor. Aliás. Faz-me viver.

Julieta

(direitos de autor)

Uma resposta to “OACPMUSSA”

Trackbacks/Pingbacks

  1. arteicoisas - Abril 30, 2011

    […] “Domingo” (link) […]

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